domingo, 11 de março de 2012

epitáfio

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domingo, 4 de março de 2012

A palavra que não faz curva

Gosto das conversas, e você bem sabe, mas ultimamente ando mais afeita ao verbo escrito que ao falado. Aliás, escrevi, dia desses, sobre e sob a inspiração de Karina, que o verbo do qual depois de tanto a pessoa morre, pode ser o verbo guardado. Complementei registrando que eu só não quero morrer de verbo guardado. Eu não sei porque o verbo guardado me engasga tanto. Ou melhor, eu não sei porque o engasgar do verbo guardado me incomoda tanto. Quer dizer, eu acho que eu sei. Eu poderia ficar ali, abstraindo, fingindo que ele não existe. Mas no entanto, toda hora ele me tapa o canal da respiração e eu não posso deixar notá-lo e, consequentemente, de vomitá-lo. É, no fim, uma questão de sobrevivência. Bom, isso tudo aqui, presente por meio dessas letras, é um vômito. Uma parte asquerosa e em certa medida catártica de mim. Mas, ainda assim, uma parte de mim. E uma parte de mim em que, por mais asquerosa e catártica que seja, você se encontra presente. Você não é asqueroso, tampouco catártico. Mas uma parte de você em mim está guardada ali, e não fui eu quem escolheu. Eu sou uma sujeita confusa apesar de muito certeira. Eu tenho dúvidas, tenho siricutico, tenho um mundo de possibilidades, de combinações mesmo de todos os pontos aparentemente presentes em mim passando em filme por minha cabeça a cada segundo. Filmes diferentes e inúmeros que às vezes se reprisam. Uma sujeita que, na quarta-feira, enquanto você se fazia presente e distante ali, sentado ao meu lado, quase colado, mas sem nunca, jamais tocar, foi simplesmente incapaz de compreender a subjetividade das coisas que amarram o peito. Eu não sei o que eu sou. Eu não sei o que eu sinto. E muitas vezes acho que abri mão da pretensão de saber. Mas eu sei que você me confunde e me desorienta. Logo você, o protótipo do orientado. Eu te amo, e isso é tão clichê, tão banal, tão absolutamente previsível, que chega a ser complexo demais aos meus sentidos. E eu não sei o que fazer com isso. O problema não é a falta de rumo em si, mas a presença dela nos meus dias tão necessariamente objetivos. Você me desobjetiviza. Me bifurca. Tanto, que é quase insuportável mesmo a mim, essa sujeita tão difusa. Me afasto um pouco das palavras, concluindo, erroneamente, que tudo o que deveria estar dito, está dito. Volto ao papel, agora menos caótica, para registrar que não pude deixar de pensar, sobre tudo o que se disse e sobre tudo o que eu senti ou acho que senti ali naquele banco, que esse pós-parto do fim está em conexão direta com o fim mesmo. (Já parou pra pensar como o fim é mesmo um parto? Quer dizer, o amor compartilhado no cotidiano é sempre gestação, mas nunca parto. O parto da gestação do amor é o fim, posto que se gesta um amor inteiro, inclusive em sua fração mais malfadada, aquela esquina onde por qualquer bobagem ocorre o pensamento e se não desse mais certo, e se voltássemos à imparidade, para que ele termine expurgado do útero compartilhado que o guardou, o alimentou, o aqueceu e lhe deu condições de existir. O útero que gesta é o mesmo que sufoca e mata, o que me faz concluir sobre a imaternidade do amor). Você me falava ali sobre coisas nada sutis, sobre impressões muito certas e coesas suas a respeito da situação geral. Você sabe sempre muito bem sobre as pessoas e sobre o mundo. As idéias que você tem sobre tudo são sempre muito bem estruturadas e quase nada flexíveis. Isso, a despeito de todo o meu amor por você, me mata. Eu sou alguém que duvida, ou que aprendeu a duvidar. Não no terreno do descrédito, mas sim no das possibilidades de existência de diversas realidades. O que digo aqui é o óbvio, porém no conjunto de nossa (des)humanidade, temos nos mostrado – ou nos forjado, talvez – absolutamente incapazes de compreendê-lo. Enquanto tivermos certeza sobre o mundo que nos cerca, incluindo as pessoas nele presentes, a vida será cortante. Essa é, atualmente, a única certeza que carrego. Meu sentimento é de que sua inflexibilidade é boa parte do que não nos deixou nos moldar a esse amor sensível e consideroso, que, diante de todo esse imbróglio, torna-se precisamente falido.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Amenidades

Hoje eu saí caminhando pelas calçadas com meus fones de ouvido, como faço todos os dias. Contudo, decidi não mais apenas movimentar discretamente os lábios sem emitir som. Achei por bem compartilhar toda aquela voz emudecida pela convenção de que não se é lá muito normal cantarolar o que se ouve na presença de estranhos. Além disso, resolvi que se eu tivesse vontade de sacolejar meu corpo sob o embalo da desmudez, faria-o também. A coleção de reações, embora curiosa, mostrou-se positiva no sentido de provar a mim que ainda não nos tornamos absolutamente blasé. Hoje eu saí de casa comprometida com a tarefa atualmente incomum, porém nada extraordinária, de apanhar alguém em algum lugar. Apesar da geografia e da arquitetura indicarem o contrário, me vi metida num traje demasiado paulistano. (eu, caiçara que sou, tenho reconhecido dificuldade em despir joelhos, coxas, colo e ombros sem verificar certo desconforto). Apanhar alguém em algum lugar é coisa bastante característica da geografia de onde nasci e cresci. Não é nada comum na geografia em que escolhi. Lá é sempre passo aí, passa aqui, pra gente ir. Aqui, nos encontramos lá, te espero próximo. Enquanto esperava, observei um casal de bicicleta. E outro. E mais outro. Agora dois amigos. Me dei conta de que também há muito não via uma bicicleta ocupada por mais de uma pessoa. A cena do garoto esperando calmamente que a namorada se acomodasse sobre o esquadro, e a concentração dela ao posicionar os pés – vestidos com chinelos, claro – com as pontas tensionadas pra cima a fim de não encostar no chão, para depois saírem, ele às pedalas e ela a observar as crianças agarradas no avental do pipoqueiro na calçada, esquentou-me. Fez-me sensível à minha insensibilidade destinada a esta que é – ou foi, em algum momento – a minha cidade. Cheguei a pensar que talvez eu venha sendo muito dura com a ignorância discreta das pessoas daqui. Hoje eu reexibi na memória os dias de carnaval, a catarse coletiva que experienciei. Sou bastante afeita a tudo aquilo que demonstra vivacidade e, em meio a reexibição, fixei-me na reflexão acerca deste ponto. Acho, acho não, tenho certeza, que isso não é algo generalizado. Aliás, consigo pensar em um bom punhado de conhecidos que parecem ter medo de tudo aquilo que demonstra estar vivo. E por isso, muitas vezes, esses sujeitos não apenas não se contentam em viver meio mortos como também sentem a necessidade de matar um pouco os vivos que estão mais próximos. Hoje minhas pupilas dilataram demais. Cada vez que isso acontece, sinto que nunca mais elas voltam a se fechar tanto quanto antes.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Cinzas

Hoje dormi pela primeira vez na cama que era nossa sendo minha só. Tenho me pesado em outros leitos e aquinhoado este desde que a sombra una se partira. Não há melancolia. A cama solitária é mais espaçosa pra se abrir os braços. Não há quem me comprima e nem tampouco quem espere por calar a parte de mim que ressona alto. Meu ronco e meus movimentos são reflexo de sentido e anseio. Suprimi-los pode me fazer passível de contemplação, porém faz-me igualmente plástica. Gente é calor, é ruído e cheira mal. Carregue com você sua frigidez, e eu tratarei de restar aqui com minha espuma.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Saudade de amanhã

Reunião com Aquela hoje pela manhã, depois de correr quase que até a exaustão. Terminei a corrida com fome de mundo e a reunião, com fome de vida. A antropologia me desperta, me estarta. Vontade de olhar tudo, de comer com a respiração, de sentir o todo em conjunto, de exceder o corpo. Megalomania sensível-compreensiva. O corpo pulsa e o espírito transborda. Do alto dos meus cento e setenta e oito centímetros recheados pelos meus setenta quilos não tão bem distribuídos, a carapaça soa escassa aos sentidos. E todo toque me grita que um bom campo se aproxima. O embalo é o de mergulhar numa piscina profunda com os joelhos abraçados junto ao corpo e os olhos fechados. Sentibolhas. Aumenta minha saudade de amanhã. Resquícios – e saudades – de Gentleman, a racionalidade joga freneticamente seu laço sobre mim. Mas erra o alvo. Ainda tropeço um pouco, pesada, como criança que acaba de aprender a andar. Mas estou ficando boa nessa coisa de corrida de obstáculos. Hoje me apaixonei por uma biblioteca. E o problema é que ela não mora muito longe. Aquele me escreveu ontem, mandava um blog de um coletivo de dança que tem por palco ruínas de demolições urbanas. O endereço veio antecedido por suas impressões expressas de um dos trabalhos. Aquele é um desses corpos que ultrapassam o tato nos sentidos, que têm o mundo a entrar por cada poro e ouvem as notas que o vento toca nos cabelos. É bailarino das palavras. Escreve sobre ruínas com o controle entre leveza e peso tal qual aqueles que o têm sobre o corpo originalmente nada flutuante. A vida é mesmo coisa curiosa. Às vezes acho que o sentido da vida é a vida mesma. Ando a me dividir entre o rock de Camelo e a bossa de Radiohead. Parece a trilha perfeita pro agora, debochando da descoberta de uma cadência descompassada como métrica ideal para se moldar os dias. Existe quase amor em esse pê.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Ausente

Encontro-me neste momento imóvel. À espera de algo que confabulei com meus pensamentos e estruturei em minha imaginação, mas que sabidamente não acontecerá. Então permaneço imóvel. Eu, o corpo, abaixo do teto, acima da cama. Absoutamente imóvel. O peito anseia. A ansiedade não me deixa eufórica, ao contrário, imobiliza-me. Quero fazer, quero mover, quero agir, quero transcender, revolucionar, me perder em feituras incríveis de processos eletrizantes. E no entanto, imóvel. O que existe na lacuna entre a desação e o existir? Hoje eu senti. Não pelo que há, mas sim pelo que falta.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Não é de ver pra crer

Eu estava ali, sentada na frente daquele cara e falando sobre a minha incapacidade de criar personagens. Você sabe, eu não sou muito criativa. Eu quando estou aqui te falando das coisas, do mundo, da história super engraçada, estou sempre falando de mim. Talvez não seja bem falta de criatividade, pode ser egocentrismo mesmo. É, pode ser. Pode ser que o meu egocentrismo seja tão grande que bloqueie a minha capacidade criativa. Daí fico assim, enfiando a mim mesma nos meus personagens. E, cara, coitados. Porque me aguentar não é fácil, sabe. E me aguentar fazendo você ser eu, cara, deve ser um porre. Acho que por isso dei um tempo pra eles. Pra ver se eles descansavam um pouco de mim. Mas você sabe, depois de tanto verbo a pessoa morre. E pode ser de verbo falado ou de verbo escrito. Mas pode ser também de verbo guardado. E eu só não quero morrer de verbo guardado, porque sou assim, um tanto egoísta nesse ponto. Você vê, egocêntrica e egoísta. Talvez o caso seja mesmo de muito ego. É, acho que sou uma sujeita ego. Digo uma sujeita porque, você sabe, sempre achei que o maior sexismo da língua está na expressão “um sujeito”. “Uma sujeita”, pela norma culta, não existe. Assim, gramaticalmente, a palavra sujeito é do gênero masculino e, enquanto adjetivo, tem feminino, porém, enquanto substantivo, não, podendo ser aplicada nessa forma a pessoas do gênero masculino e feminino. Chama-se a isso de nome, ou substantivo, sobrecomum. Ou seja, o sexo feminino, pode estar sujeito, mas não pode ser sujeito. Pra ser sujeito, ele tem de sê-lo no masculino. Tem opressão linguística maior que essa? Bom, o caso é que um dia, um sujeito, assim, no masculino mesmo, lá do Recife – ele me ensinou que você nunca deve falar de Recife, embora a gramática mande, porque ofende quem é de lá. O certo mesmo é do Recife, e bom, eu poderia falar sobre como isso me parece correto, já que ser do é muito mais fazer parte junto do que ser de, que é mais pertencer a sem fazer parte, mas acho que esse papo gramatical cansa - bom, ele estava me contando uma história e falou “daquela sujeita”. E eu pensei, é isso, vou ser daqui por diante uma sujeita, porque não quero estar sujeita ao sujeito. Bom, mas o fato é que o que eu falava pro cara que estava ali sentado na minha frente, é que as férias que eu dei pros meus personagens eu acho que já estavam chegando ao fim. Afinal, pensei muito nesse tempo e, você sabe, tem coisas que a gente muda, mas tem outras que nem amarrada. Então, resolvi que talvez seja o caso de ser assim, um tanto ego mesmo. Porque a verdade é que já me convenci de que vou morrer in, incoerente, incerta, inexata, intensa. Infinitamente humana. E depois disso disse pra ele tchau, vou andando, porque posso ser uma sujeita ego, mas ainda me resta algum bom senso, e sei que ninguém é obrigado a aguentar um papo chato a noite inteira.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Pela janela, o vento uiva.
Uivo de volta; não se assusta e continua.
Aqui dentro, a água turva.

De nada vale o remexer da água e do vento sem tuas curvas.

E o pensamento inunda.

domingo, 28 de março de 2010

She's got a ticket to ride

Breves dias infinitos. Intensos e profundos, carregariam um mundo de planos, não fosse pela certeza da chegada dos domingos de ressaca. Sei dos dias inúteis, sangrentos e não faço pedidos; são em vão. Conto apenas as horas para uma nova fuga do desvario e encontro da serenidade, regada a cachaça, celebrando a vivência daquilo que deveria ser a cotidiana realidade. Não há esperança na utopia, e por isso volto ao concreto neste longo janeiro, sem deixar de pedir - eu que não creio - pela breve chegada de um infinito fevereiro.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Azedo

Então mais uma vez era hora de partir. Partir de mim e abandonar a carcaça na primeira esquina. Voltar a vagar sem contorno, em busca de qualquer copo de cachaça que me materializasse, de qualquer paixão sabidamente adolescente e fugaz que me fizesse sentir viva. Um porre, um maço de cigarros, meia dúzia de versos falsos e uma noite pela cidade quase inóspita - sempre começava aí a despedida, um tipo de anestesia. Alguém tão perdido quanto eu e qualquer frase profunda de veracidade duvidosa. Um adorno, só pra fingir não sermos tão sozinhos, tão egoístas. A essa altura, já tinha aprendido a acreditar nas mentiras sem correr o risco de qualquer desilusão verdadeira, apenas antevendo o momento de novamente encenar um fim e uma fossa. Era melhor, eu pensava, do que qualquer relacionamento-funcionário-público. Busquei, mas nessa noite, todos aqueles com quem troquei algumas palavras pareciam bem localizados, nenhuma dúvida, muitas certezas. Planos pra vida, verdades absolutas, planos pra daqui 50, 60 anos. Previdência paga todos os meses e estamos salvos. Entre os profetas bêbados e loucos do centro da cidade, embalados pela madrugada fria, aqueles que tinham um bom casaco não sorriam, mas eu sabia, eram bem felizes. Apenas disfarçavam na tentativa de mostrar - pedante e forçosamente - que tinham algo além do comum. Eu estava entre eles. (E o que fazíamos, senão fugir para um grupo de iguais sob a justificativa de sermos diferentes?). À parte o teatro, os questionamentos me invadiam a mente, e era mesmo hora de partir. E pra onde? A verdade era que em poucos anos eu havia feito a mesma coisa algumas vezes, e, ainda que as circunstâncias fossem diferentes, os grupos, os lugares, as pessoas, as idéias, tinham no fundo a mesma essência. Algum inconformismo pra disfarçar o fato de sermos tão miseráveis, tão mesquinhos, mais proposições ditas indiscutíveis, mais dicotomias, qualquer substância capaz de nos suspender alguns minutos deste inferno, alguma migalha de atuação em qualquer sentido capaz de nos fazer dormir tranquilos. No fim, cada passo dado era calculado no sentido de me tornar menos medíocre, revelando sempre a mediocridade resistente, por agir pelo coletivo apenas como forma de me tornar menos infame.

domingo, 12 de abril de 2009

Sobre luzes e trevas

É que em meio ao improvável, tropeçara num suspiro. Já não ligava para a enorme quantidade de luzes separadas em vermelhas e brancas sobre as duas pistas da imensa avenida que se estendia por debaixo da ponte onde passava, nem mesmo para a chuva que fechava o dia no único lugar onde era possível assistir às quatro estações climáticas em menos de vinte e quatro horas. As luzes que tomavam as ruas eram o reflexo de seu tempo, no sentido de muita informação pra pouco entendimento, e não conseguia deixar de reparar em todos os luminosos, em todas as placas, nas imagens do televisor solitário projetadas nas paredes e observadas através das janelas, sabendo que a infinidade de clarões aos quais assistia passivamente não iluminavam, mas cegavam, não guiavam, mas ditavam. Ainda assim andava descobrindo caminhos. Entre os zumbis que caminhavam no cinza diariamente, embalados pelos passos automáticos de despertador, esperando pela morte sem se dar conta de sua vida póstuma, havia achado um amarelo ou azul. Ao colocar em xeque suas certezas, e ter morrido pela primeira vez (não como os zumbis, mas como aqueles que descobrem que só a morte traz vida, e que se há de morrer muitas vezes pra poder renascer outras tantas) ali tinha descoberto que o melhor não está no círculo, e sim no labirinto. A dúvida já não atormentava mais, passara pro seu lado ao descobrir que pouco importam as definições. Importa mesmo o que se faz, que é isso que faz a gente.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Todos os nós

o céu
o banco
eu

você
a praia
o breu

os olhos
o verso
nós

nós
estranho alento

os nós dos
teus cabelos
nos nós do vento

meus cabelos
nos nós
dos teus dedos

teus nós
no meu
pensamento

meus nós
em teu
sossego

os nós
de nós
a sós

os nós
que desatam
nós

nós
que desatam
nos

e nós?

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Dezembro

Já conheço os estágios que irão se seguir.

Primeiro um sorrir fraco a esconder a dor pontiaguda, que perfura para escoar a rima pobre e o queimor. Tudo o que não se externa comprimido na garganta e o dopamento involuntário unido ao olhar vago. Um viver sem rima, sem cadência, uma sensação de eterna inércia. Tudo em baixa freqüencia.

Depois, o tempo contagia a memória, cuidando de corroer recordações descabidas, tornando menos constante a insônia, trazendo fuga disfarçada em vida.

E os versos dão lugar à prosa corrida sem entremeio de respiração sem possibilidade de racionalização sem respirar sem parar as noites agitadas e vazias tornam-se constantes a cabeça não pensa a alma não sente uma dança quente uma madrugada fria e corpos ocos ocupam espaços cheios de lembranças e beijos de um só acorde que nunca renderão uma música enfeitam tudo numa falsa esperança e dias repletos de ruas de pessoas de lugares de goles de fumaça. E tudo isso não basta.

Então a realidade
fria estende a mão
já não há desespero
e o sal já secou
a dor foi curtida
a angústia acabou
é quase janeiro
hora dos fins
e dos recomeços

te deixo partir.

Talvez você nunca sinta, por não conviver com a ausência, mas só o vazio transcende. Só o vazio é presente.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Diálogo

Numa madrugada fria, dessas em que nada parece fazer muito sentido, desci até o boteco da frente de casa e sentei no balcão. Pedi qualquer coisa quente que me desse algum alento e fiquei ali, curtindo cada trago amargo. O bar estava meio vazio, devia ser alguma noite morta de semana, não lembro. Passado algum tempo sentou um cara do meu lado, devia estar perto dos 30, alto e magro. Fuma? Respondi um não entre dentes e olhando pro copo. Perguntou de onde eu vinha e respondi seca que da minha casa, ainda sem levantar os olhos. Ele riu.

-Pra onde vai?
-Era o que eu estava pensando até você me interromper.
-E quais as opções?
-Não tenho. Consigo pensar apenas no lugar algum.
-É...eu sempre soube pra onde eu ia. Mas nunca consegui chegar lá.
-E pra onde?
-Pra qualquer lugar que me mostrasse quem sou.
-Vá pra dentro então, oras.
-Vou sempre. Mas não enxergo.

Então levantei o rosto e o encarei. Procurei qualquer traço de deboche, mas não, o cara estava sério, e nem parecia tão alcoolizado.

-E você, de onde vem?
-De outro bar, que fechou.
-Hm...
-Acho que esse é o problema.
-O quê?
-Os bares sempre fecham antes que eu possa enxergar qualquer coisa.

E eu ri.

-É, acho que eles também fecham sempre antes de eu descobrir pra onde vou. E acabo ficando por aqui mesmo.
-E você já se encontrou por aí, ao menos?
-Não, acho que não...ando fugindo de mim, sabe.
-Não quer ver?
-Não sei, talvez. Talvez não consiga mesmo.
-É.
-Bom, vou indo, até.
-Até.

Apesar de sempre beber nesse bar, nunca mais vi esse cara. Acho que porque ele deva ter seguido sua busca, e eu continuado no mesmo lugar.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Andança

Na última vez em que estive lá, choveu. E começou o que para eles é o inverno. Ao contrário de tantos dias em que, durante a labuta, era pega de surpresa pelo temporal, não praguejei. Fui subindo a larga avenida com a mochila nas costas e sentindo cada um dos fortes pingos batendo sobre o meu rosto, avistei o ponto de ônibus do outro lado da encruzilhada, mas, sem pensar muito, virei à esquerda e continuei andando, não me importando com o barro vermelho que respingava sobre os meus tênis e a barra das minhas calças. Não que meu destino fosse próximo, mas queria ainda caminhar por mais alguns quarteirões. Precisava daquilo.
Filtração é sempre difícil e lenta; arde. E é solitária. É coisa que precisa de visão, e em minha cabeça tudo era tão nítido quanto a imagem formada através dos pingos nas lentes dos meus óculos. Não adiantam os ouvidos mudos, não adiantam os consolos de sorrisos amarelos, adiantam menos ainda os conselhos rasos. O que se sente, só a gente é quem sente, e apenas sente. Se dói também. E dor também é solitária.
A chuva é melhor que qualquer conselho e consolo porque parece assim que entra e sente junto. É como se ao menos por alguns instantes, fosse possível dividir o peso, como se as gotas salgadas pudessem se misturar às doces, formando pares e dividindo por muitos a pedra presa na garganta.
Depuração vez ou outra é necessária, e depois da angústia e de um último soluço comp pass ssado - e o suspiro -, parece que as gotas nas lentes vão secando e, ainda mambembe, vai-se tateando um caminho por entre tantos cruzados. Talvez nunca se saiba qual o melhor.
Não sei quantos foram os quarteirões. Não sei se precisava de mais outros.
Atravessei a rua, fiz sinal e entrei no ônibus.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Amores breves

O correr dos dias tornava-a cada vez mais só, e sua companhia mais fiel era a vodka vagabunda, que nunca falhava em sua espera depois do dia-ar-seco, com um afago quente, daqueles que causam arrepio na espinha, e um abraço apertado, de tirar o ar. Amores tinha aos montes, dois por dia no mínimo, um na ida ao trabalho, outro na volta pra casa. Apaixonava-se sempre quando no metrô. Olhava e não conseguia resistir à tentação de imaginar como seria sua vida ao lado daquele estranho com quem parecia combinar tanto santacecíliarepúblicaanhangabaú e ficava imaginado seus gostos, seus medos, suas vontades, . E as portas se abriam, e o amor acabava, só restando novamente o vazio infalível. Pensava que já se acostumara tanto à solidão que seria difícil deixá-la, e sentiria talvez a mesma dor dos términos de namoros longos ao abandoná-la, pois não podia deixar de reconhecer nessa sua companheira uma certa segurança. Já havia se entregado a ela de tal forma que duvidava conseguir fazer o mesmo a outro alguém. Por isso preferia os amores prontos-pra-esquentar, condizentes com a vida que corria e embaçava tudo paradoxalmente ao mesmo tempo. Por outro lado, não conseguia deixar também de pensar que poderia não ser de todo ruim se um de seus amores breves se mostrasse surpreendentemente baixo, rasteiro ao ponto de dobrar-lhe os joelhos e arrancar-lhe à força da solidão, como o levantar das manhãs dos dias com despertador, em que se toma o susto e se levanta da cama sem exata consciência dos acontecimentos, pois seria darmo-nos conta, para tão logo desistirmos.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Dois minutos

O frio vagabundo e fajuto, característico dali, lembrou-o. Remexeu as peças já tão distantes e, quase num susto, lembrara-se do boteco. O melhor boteco. Um daqueles imundos, de cerveja gelada e barata, do garçom amigo, templo dos seguidores da branca, refúgio na noite de dias perdidos. O boteco que quase fora o lugar inesquecível; que quase ficara tombado em pensamento; que presenciou quase tudo que lhe ensinara que o quase quase sempre é nada. O CD no som do carro começou a tocar o hardcore empoeirado, trazendo-lhe à frente, como estando vivas, cenas que há tempos as costas calejadas já lhe haviam tragado. Estava desacostumada, depois de tempos sem ouvir a confusão da bateria e a profusão de acordes distorcidos das guitarras. Trocou de faixa. Sentiu a quentura e a vermelhidão do rosto. Trocou o CD. Os segundos de silêncio entre um disco e outro foram suficientes pra vir em caravana uma sorte de memórias confusas. E então logo lhe veio o depois, o pouco que sobrou e o quase tudo consumido. Nesse caso, o quase era tudo. Suficiente pra deixar pra lá e cegar de vez as costas.

domingo, 2 de novembro de 2008

Se der tempo

O vazio. O vazio era talvez o que mais doía. E dor vinha naquela hora em que voltava pra casa, no metrô, e encostava a cabeça no vidro (ou no braço apoiado na barra, pingente), exausto. Vinha também num dia de menor cansaço quando ao travesseiro sobrava tempo de lhe ocorrer alguns pensamentos, antes do desmaio. Era o tempo que tinha. E nisso também pensava, e isso também doía. Os ideais, bem, eles não pagavam as contas. E a poesia fora engolida pela ansiedade dos dias. Mas e a vida? Vida é outra história. O problema é que ela não nasce com a gente, a gente é quem pari a vida. Mas também tem quem nunca pari, e fica ali, grávido de uma coisa que nem sabe bem.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Cartolicismo

Certa vez assisti a uma entrevista de Paulinho da Viola em que narrava uma passagem sua com Cartola já internado e bastante adoecido. Falava sobre uma visita que lhe fizera no hospital, apenas com a intenção de saber sobre seu estado de sáude, mas que, pela ausência de movimento no dia, transformara-se em algumas horas de conversa.
Depois de uns e outros assuntos jogados fora, Paulinho conta que ficaram ali, alguns segundos em silêncio, com o poeta de cabeça baixa. Cartola então dissera algo o qual lhe fora bastante significativo. E, se me for desculpada a pretensão, a mim também.

Disse
ra: É seu Paulo, a vida é isso aí.