Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

Andança

Na última vez em que estive lá, choveu. E começou o que para eles é o inverno. Ao contrário de tantos dias em que, durante a labuta, era pega de surpresa pelo temporal, não praguejei. Fui subindo a larga avenida com a mochila nas costas e sentindo cada um dos fortes pingos batendo sobre o meu rosto, avistei o ponto de ônibus do outro lado da encruzilhada, mas, sem pensar muito, virei à esquerda e continuei andando, não me importando com o barro vermelho que respingava sobre os meus tênis e a barra das minhas calças. Não que meu destino fosse próximo, mas queria ainda caminhar por mais alguns quarteirões. Precisava daquilo.
Filtração é sempre difícil e lenta; arde. E é solitária. É coisa que precisa de visão, e em minha cabeça tudo era tão nítido quanto a imagem formada através dos pingos nas lentes dos meus óculos. Não adiantam os ouvidos mudos, não adiantam os consolos de sorrisos amarelos, adiantam menos ainda os conselhos rasos. O que se sente, só a gente é quem sente, e apenas sente. Se dói também. E dor também é solitária.
A chuva é melhor que qualquer conselho e consolo porque parece assim que entra e sente junto. É como se ao menos por alguns instantes, fosse possível dividir o peso, como se as gotas salgadas pudessem se misturar às doces, formando pares e dividindo por muitos a pedra presa na garganta.
Depuração vez ou outra é necessária, e depois da angústia e de um último soluço comp pass ssado - e o suspiro -, parece que as gotas nas lentes vão secando e, ainda mambembe, vai-se tateando um caminho por entre tantos cruzados. Talvez nunca se saiba qual o melhor.
Não sei quantos foram os quarteirões. Não sei se precisava de mais outros.
Atravessei a rua, fiz sinal e entrei no ônibus.

4 comentários:

Renan Rodrigues disse...

chuva necessária como rota não traçada.

bom mesmo.

abraço

Luciano Costa disse...

as estranhas buscas pela redenção só podem mesmo ser feitas sob chuva e em caminhadas sem rumo definido. até porque não sabemos onde encontrá-la.
muy bueno seu blog.

Fernanda S. disse...

A chuva é necessária para purificar... e, coincidência ou não, aqui chove. Agora!

Adoro mto! E estava precisando disso... hehehe

Mil bjocas

Renan Rodrigues disse...

Tá linkada lá também =)

beijo