sexta-feira, 12 de junho de 2009

Azedo

Então mais uma vez era hora de partir. Partir de mim e abandonar a carcaça na primeira esquina. Voltar a vagar sem contorno, em busca de qualquer copo de cachaça que me materializasse, de qualquer paixão sabidamente adolescente e fugaz que me fizesse sentir viva. Um porre, um maço de cigarros, meia dúzia de versos falsos e uma noite pela cidade quase inóspita - sempre começava aí a despedida, um tipo de anestesia. Alguém tão perdido quanto eu e qualquer frase profunda de veracidade duvidosa. Um adorno, só pra fingir não sermos tão sozinhos, tão egoístas. A essa altura, já tinha aprendido a acreditar nas mentiras sem correr o risco de qualquer desilusão verdadeira, apenas antevendo o momento de novamente encenar um fim e uma fossa. Era melhor, eu pensava, do que qualquer relacionamento-funcionário-público. Busquei, mas nessa noite, todos aqueles com quem troquei algumas palavras pareciam bem localizados, nenhuma dúvida, muitas certezas. Planos pra vida, verdades absolutas, planos pra daqui 50, 60 anos. Previdência paga todos os meses e estamos salvos. Entre os profetas bêbados e loucos do centro da cidade, embalados pela madrugada fria, aqueles que tinham um bom casaco não sorriam, mas eu sabia, eram bem felizes. Apenas disfarçavam na tentativa de mostrar - pedante e forçosamente - que tinham algo além do comum. Eu estava entre eles. (E o que fazíamos, senão fugir para um grupo de iguais sob a justificativa de sermos diferentes?). À parte o teatro, os questionamentos me invadiam a mente, e era mesmo hora de partir. E pra onde? A verdade era que em poucos anos eu havia feito a mesma coisa algumas vezes, e, ainda que as circunstâncias fossem diferentes, os grupos, os lugares, as pessoas, as idéias, tinham no fundo a mesma essência. Algum inconformismo pra disfarçar o fato de sermos tão miseráveis, tão mesquinhos, mais proposições ditas indiscutíveis, mais dicotomias, qualquer substância capaz de nos suspender alguns minutos deste inferno, alguma migalha de atuação em qualquer sentido capaz de nos fazer dormir tranquilos. No fim, cada passo dado era calculado no sentido de me tornar menos medíocre, revelando sempre a mediocridade resistente, por agir pelo coletivo apenas como forma de me tornar menos infame.

4 comentários:

Renan disse...

voltou a escrever. isso é bom. e isso também.

Fernanda S. disse...

"A essa altura, já tinha aprendido a acreditar nas mentiras sem correr o risco de qualquer desilusão verdadeira, apenas antevendo o momento de novamente encenar um fim e uma fossa."

Acho que queria aprender a acreditar, mas, acima de tudo, não me envolver. O envolvimento da carne e do sentimento nos tiram a razão e nos deixam completamente perdidos...

Ai, ai...

Beijos, querida! Escreva mais. Escreva sempre.

~*Rebeca e Jota Cê *~ disse...

Adorei!

Luciano Costa disse...

saudades de ler esse blog.