Eu estava ali, sentada na frente daquele cara e falando sobre a minha incapacidade de criar personagens. Você sabe, eu não sou muito criativa. Eu quando estou aqui te falando das coisas, do mundo, da história super engraçada, estou sempre falando de mim. Talvez não seja bem falta de criatividade, pode ser egocentrismo mesmo. É, pode ser. Pode ser que o meu egocentrismo seja tão grande que bloqueie a minha capacidade criativa. Daí fico assim, enfiando a mim mesma nos meus personagens. E, cara, coitados. Porque me aguentar não é fácil, sabe. E me aguentar fazendo você ser eu, cara, deve ser um porre. Acho que por isso dei um tempo pra eles. Pra ver se eles descansavam um pouco de mim. Mas você sabe, depois de tanto verbo a pessoa morre. E pode ser de verbo falado ou de verbo escrito. Mas pode ser também de verbo guardado. E eu só não quero morrer de verbo guardado, porque sou assim, um tanto egoísta nesse ponto. Você vê, egocêntrica e egoísta. Talvez o caso seja mesmo de muito ego. É, acho que sou uma sujeita ego. Digo uma sujeita porque, você sabe, sempre achei que o maior sexismo da língua está na expressão “um sujeito”. “Uma sujeita”, pela norma culta, não existe. Assim, gramaticalmente, a palavra sujeito é do gênero masculino e, enquanto adjetivo, tem feminino, porém, enquanto substantivo, não, podendo ser aplicada nessa forma a pessoas do gênero masculino e feminino. Chama-se a isso de nome, ou substantivo, sobrecomum. Ou seja, o sexo feminino, pode estar sujeito, mas não pode ser sujeito. Pra ser sujeito, ele tem de sê-lo no masculino. Tem opressão linguística maior que essa? Bom, o caso é que um dia, um sujeito, assim, no masculino mesmo, lá do Recife – ele me ensinou que você nunca deve falar de Recife, embora a gramática mande, porque ofende quem é de lá. O certo mesmo é do Recife, e bom, eu poderia falar sobre como isso me parece correto, já que ser do é muito mais fazer parte junto do que ser de, que é mais pertencer a sem fazer parte, mas acho que esse papo gramatical cansa - bom, ele estava me contando uma história e falou “daquela sujeita”. E eu pensei, é isso, vou ser daqui por diante uma sujeita, porque não quero estar sujeita ao sujeito. Bom, mas o fato é que o que eu falava pro cara que estava ali sentado na minha frente, é que as férias que eu dei pros meus personagens eu acho que já estavam chegando ao fim. Afinal, pensei muito nesse tempo e, você sabe, tem coisas que a gente muda, mas tem outras que nem amarrada. Então, resolvi que talvez seja o caso de ser assim, um tanto ego mesmo. Porque a verdade é que já me convenci de que vou morrer in, incoerente, incerta, inexata, intensa. Infinitamente humana. E depois disso disse pra ele tchau, vou andando, porque posso ser uma sujeita ego, mas ainda me resta algum bom senso, e sei que ninguém é obrigado a aguentar um papo chato a noite inteira.
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